terça-feira, 10 de agosto de 2010

Um Conto, dois Corpos e Desejo.


Mesmo embaixo do chuveiro, nem a água é capaz de esfriar seu desejo quente nem de acalmar sua pele arrepiada.
Umas de suas mãos passeavam sobre a pele lisa e macia de seus seios, enquanto a outra, na parede suada escorria depois de ter seus dedos dobrados com força ao se lembrar dos desejos dele que eram desabafados sem pudor em seus ouvidos.
Sua boca sussurrava, semi- aberta, gemidos baixos.
Gemidos intensos
Suas mãos transloucadas deslizavam pelo seu corpo molhado.
Sua silhueta perfeita era feita de curvas onde homem nenhum gostaria de se encontrar depois de se perder
E seu prazer, grande e molhado, forçavam sua mão a descer e seus dedos a lhe tocar em ritmos como uma batida intensa de um Blues. E nesta mais louca fantasia viu suas mãos transformarem-se nas mãos que ditava o desejo dele.
Então, ela escolheu usar seu batom mais bonito. Era um batom de cor forte e que ficava ainda mais forte quando contrastava em sua pele de marfim.
Abriu seu guarda-roupa e dele tirou seu melhor vestido. E vestindo-o podia sentir um cheiro de novo quase como nunca usado, mesclado com um cheiro de muito tempo guardado. Pôs-se a pentear seus longos cabelos. Cabelos que a cor mais nos remetia aos campos de trigo de alguma plantação qualquer do interior.
Pegou sua bolsa, o celular, as chaves e o elevador. E do interior dele pode ver sua imagem refletida no espelho. A imagem de um mulher que certamente foi esculpida, pessoalmente, por Deus.
No estacionamento mal iluminado podia escutar o barulho e o eco do salto fino do sapato alto e preto. Tão preto e tão brilhante como um carvão ainda frio banhado em verniz.
Entrou no carro e ligou também o rádio que tocava naquele momento o mesmo Jazz que ela tinha num cd surrado mais do que riscado de tanto ouvir.
Alternadamente as luzes dos faróis amarelos e lanternas vermelhas dos carros iluminavam seu rosto, destacando o sorriso suave que esboçava. Um sorriso entreaberto que já daquela mesma forma era possível identificar uma pequena amostra dos dentes perfeitamente retos e brancos.
O Jazz que ainda tocava se misturava com o som agudo das várias buzinas e também com o barulho seco das gotas que começavam a bater no vidro, anunciando uma tempestade que perduraria por longas noites e longos dias, entravam em sintonia como numa sinfonia.
Seu semblante puro e tão perfeito era quase capaz de disfarçar a angústia que carregava no peito e a culpa que pesava em suas costas. Mas ela só queria ser feliz. Queria se entregar para a vida, como um adulto se entrega ao mar quando se depara com sua tamanha beleza depois de tantos anos de espera por uma única oportunidade.
Ainda que desta forma não pudesse, era impossível negar diante da oportunidade a chance de, nem que ao menos uma vez, provar o gosto pecaminoso do prazer que surgira e cravara seu destino numa espécie de carma.
Se existe algum Deus e piedoso ele for como num Dogma, benevolência teria dela, revogando o futuro pecado que certamente a levaria a algum lugar bem mais quente do inferno.
Ao abrir a porta ele mal pode acreditar no que via. Uma expressão de confuso, descrente e assutado tomavam seu rosto, mas que seguido de um sorriso e do brilho dos olhos apaixonados, não negava também a felicidade que sentira tudo ao mesmo tempo.
Com seu coração aos pulos olhou nos olhos dela e pode entender. Olhos que traduziam o desejo, olhavam para os dele dizendo: "Hoje sou sua, inteira sua."
Então seu corpo foi bruscamente puxado contra o corpo dele, rasgou sua roupa e sua boca pode sentir o gosto doce e quente do corpo dela que ele até então só havia experimentado nos seus sonhos fantasiados. Mas qualquer sonho que tivera mesmo no livre- arbítrio deles, não era nem de longe tão próximo da realidade, mais que excitante.
Sua boca a beijava inteira e lambia cada centímetro perfeito do seu corpo, se demorando em algumas partes dele. O Corpo dela foi o lar de sua língua, o corpo dele foi lar dos prazeres dela e ambos foram servos do desejo.
Então só agora poderiam morrer felizes, cientes que sem isto até o paraíso seria suplício.
E se algum dia pagarem for por isso, certamente o inferno seria menos quente do que aquele quarto tomado pelos desejos deles.

A convicção é inútil quando se tem um motivo maior;
O Destino.
Daniele Coelho